sexta-feira, 11 de abril de 2014

A pomba e as migalhas


Ela fica ali, à espreita, refém dos olhares, dos passantes, das migalhas
Já aprendeu a cativar, mas segue refém no seu próprio cativeiro
O das migalhas

E se delicia...com várias...de tamanhos diversos, cores irresistíveis, formatos inebriantes
Cada migalha tem uma história, uma origem e ela se orgulha, conhece cada detalhe
Repassa, na sua mente de pomba, as cenas da chegada de cada migalha

E se delicia mais, saboreia como se estivesse num banquete
Conforme se deleita, se deita e se revela
A aparente inofensiva pomba é da espécie das rolinhas
Daquelas que seduzem coronéis casados
Daquelas que nao têm freio, nem pudor
Se atracam à migalha e não largam não
As rolinhas sao miúdas, astutas e podem avançar no que não lhes pertence com avidez
Sem freio, nem pudor

Símbolo incontestável de fidelidade, amor e santidade, paradoxalmente, a rolinha ali, ainda atracada à sua migalha, tem um vislumbre de lucidez, da sua liberdade original
E instantaneamente não há mais migalhas, nem pedaços, nem partes, nem restos
Está só e inteira.

terça-feira, 1 de abril de 2014

Lindas aspirações


Os amigos, as flores, os cães, amores
Vejo todos, sinto cada um
De vocês, de mim
Parte intensa, integral, visceral
A poesia não podia faltar
Nunca!
Por ela reverencio a generosidade, o carinho e a beleza de cada palavra escrita por vocês no meu coração
Recebam por favor a minha mais sincera apreciação e alegria!
Que todos possam verdadeiramente se beneficiar com estas aspirações

sábado, 21 de setembro de 2013

Muito menos eu e você


Não há nada a ser feito além de aceitar a insatisfação que agora vive em mim
Não há nada a ser feito além de acolhê-la ao invés de tentar compulsivamente me livrar dela

Ela, a insatisfação, é apenas o fruto do desejo não saciado, o que me equipara a todos os homens, mulheres e animais que já existiram
Ela é o meu maior e melhor lembrete de humanidade, quase um triunfo
Eu que não ouse fazer dela um problema, porque não o é
Eu que não ouse encará-la como inimiga ou equação a ser resolvida, porque não o é

Espero ter ainda alguma sabedoria para olhá-la de frente com olhos cheios de afeto e ternura, para que aprenda a conviver com ela e ainda assim siga apreciando o belo e o verdadeiro

Que esse vazio me conduza ao vazio mais profundo e libertador, onde não há bom nem mau, alegria ou tristeza e muito menos eu e você.

sábado, 7 de setembro de 2013

Os côcos e a água


Hipocondríaco (ao telefone): Bom dia, Astolfo, tudo bem?

Farmacêutico: Bom dia, seu Fernando..o que é que manda?

Hipocondríaco: Astolfo, meus gases voltaram..Luftal pra mim é brincadeira de criança…

Farmacêutico: Você tem tomado a água de côco que eu te recomendei?

Hipocondríaco: Tenho medo, Astolfo..dos efeitos colaterais..

Farmacêutico: Medo de água de côco, seu Fernando?? É quase uma água benta…resolve tudo e previne o outro tudo… O senhor vai sentir a diferença..pelo menos 1 litro de água de côco todos os dias ao acordar.

Hipocondríaco: E o intestino..não solta o intestino..?

Farmacêutico: Não, seu Fernando..é bom tomar inclusive quando o intestino está solto para não desidratar.

Hipocondríaco: Astolfo…melhor a água em caixinha ou do côco mesmo?

Farmacêutico: Tanto faz seu Fernando…vai por mim…investe na água de côco…

Hipocondríaco: Tá certo, tá certo..eu vou providenciar.. Um abraço.

Farmacêutico: Abraço.

Hipocondríaco: Ô Glória, manda vir 11 côcos.

Glória – a empregada-rainha: 11?? Pra quê 11, seu Fernando?

Hipocondríaco: Ô Glória, manda vir 11 côcos.

Glória – a empregada-rainha: 11…vou pedir 10.

Hipocondríaco: Ô Glória, manda vir 11 côcos.

5 dias depois

Sobrinho: Tio, a Glória falou que os côcos são seus..vou abrir um, tá?

Hipocondríaco: Pra quê?

Sobrinho: Pra tomar a água…
Hipocondríaco: Não, Raphael..deixa eles aí…

Sobrinho: Mas tem 10!

Hipocondríaco: Eram 11, eu pedi 11… Glóriaaaa….!

Sobrinho: O que você vai fazer com 10, 11 côcos?

Hipocondríaco: O Astolfo falou que era bom, que ia me fazer bem…

Sobrinho: E não fez?

Hipocondríaco: Não sei, não tomei..

Sobrinho: Então vou tomar..

Hipocondríaco: Não! (Pausa) Deixa eles aí..

Sobrinho: Então vou abrir pra você tomar…

Hipocondríaco: Não!

Sobrinho: Tio, tá ocupando a geladeira toda..

Hipocondríaco: É pra estar geladinho quando eu for tomar…segunda-feira eu tomo, pronto. Se der algum problema eu ligo pro Dr Lopes Pontes..melhor tomar em horário comercial.

Sobrinho: Tio…que problema pode dar tomar água de côco?!

Hipocondríaco: Raphael, você sabe que eu tenho o intestino solto..

Sobrinho: Mas isso aqui é soro, que se dá para quem está com diarréia…que mal pode fazer?

1 mês depois

Glória – a empregada-rainha: Raphael…chegou mais côco…

Sobrinho: Não acredito..mas e aqueles 11?

Glória: Eram 10. Joguei todos fora, perdeu tudo. Daí seu tio encomendou mais...jura que vai começar a tomar…

Sobrinho: Que surreal… vou abrir uns aqui..

Glória – a empregada-rainha: Abre logo..daqui a pouco ele chega e daí você já viu…

Hipocondríaco: Raphael! O que você está fazendo?

Sobrinho: Tomando uma água de côco antes que ela apodreça…

Hipocondríaco: Tá bom, mas não toma tudo porque eu vou começar a tomar amanhã cedo…

Sobrinho: E o intestino..?

Hipocondríaco: O que é que tem?

Sobrinho: Como vai?

Hipocondríaco: Indo..vai indo..hora lá, hora cá…

1 ano depois

Hipocondríaco: Glória, manda vir uns côcos..

Glória – a empregada-rainha: Seu Fernando, eu me recuso a encomendar mais côco. Se o senhor quiser, encomenda o senhor mesmo. Até hoje não sabe que gosto essa água tem… Tanta gente sem água limpa pra beber e o senhor nessa lenga-lenga…

Hipocondríaco: Tá bom, Glória, tá bom! Você não quer, você não faz e tá acabado.. (Ao telefone) Astolfo, os gases melhoraram..agora o estômago anda numa queimação…será que é o feijão que como à noite? Você se dá bem com feijão à noite, Astolfo?

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Mundinho de merda, gentinha de merda


Cabelos, saltos, luzes, cores
Todas iguais
Plásticas, peitos, falsos, sutiãs
Mulheres, meninas, bruxas
Artificiais
Usam uniforme e máscara, pensam cartilha, decoram porque não pensam
Unhas, lábios, cremes, pesticidas
Provocam, cheiram, apetecem
Fiquem com elas, com todas de uma só vez, se assim preferirem
Elas não sou eu e eu, definitivamente, não sou elas.

domingo, 11 de agosto de 2013

Oração dos Artistas



Nossa Senhora cheia de arte, o sonhar é convosco
Bendita sua voz entre as mulheres
Bendita é a dor do nosso ventre, angústia
Santa poesia, mãe das artes, rogai por nós, artistas, agora e na hora da nossa estreia, merda!

Recuo da bateria


As palavras não dizem o que queremos que digam
Desobedecem
Atordoam, circundam, vão e vêem
Mais vão do que vêem
Agora não
No silêncio posso ser sábia, esse é o mérito
Manchei, porém, minha pretensa sabedoria, perguntando fora de hora, o que jamais precisara ser dito

A devoção, que já era tímida, me deixou
Volto ao recuo da bateria que já era mesmo meu e, lentamente, ensaio um novo samba
Que fale de mais liberdade, mais amor, mais abertura e, da minha parte, mais segurança no que sinto, faço e sou.